Parte da série Futuro do trabalho pós pandemia promovida pelo portal de capacitação Trilhas do Sucesso, essa entrevista traz os novos desafios do mercado de trabalho pela ótica do empresário de educação e tecnologia Carlos Vasconcelos, diretor da Avante Brasil.

Em plena semana em que se comemora o dia do trabalho, podemos dizer que esse 1º de maio foi diferente de todos os 134 anteriores comemorados desde que a data se tornou oficial para o mundo todo.

Questionado sobre quais eram os desafios de quem contrata antes da pandemia e do isolamento social Carlos revela que existe uma confusão muito grande entre formação e informação. O fato de sermos bombardeados por informações pode nos dar a falsa sensação de que temos formação suficiente. Uma das grandes dificuldades de sua empresa e de outras tantas, principalmente na área de tecnologia seria a falta efetiva de capacitação.

Ter lido sobre um tema não nos faz expert nele e assim por diante. Quando temos a formação adequada conseguimos fazer a filtragem e também a contextualização das informações relevantes para o nosso campo de atuação.

“As pessoas estão completamente assoberbadas de informação e estão saturadas e, por não terem a formação adequada, não tem as ferramentas que são necessárias para saber selecionar as informações que realmente são importantes”, explica.

Nesse sentido, as habilidades técnicas podem ficar prejudicadas por essa falta de habilidade emocional em separar a informação da desinformação, o fato,  das inverdades e isso tem mais a ver com a educação emocional do que a formação em si.

O segundo desafio apontado pelo empresário seria com relação ao engajamento. É muita informação, mas falta autoconhecimento.

Mais do que um problema para o empregador, quando um funcionário entra na empresa e fica feliz ao completar um ano porque pode solicitar o seguro-desemprego, esse é um problema de estimulo de vida do indivíduo.

Qualquer que seja a função de um trabalhador ela é muito importante para alguém e merece ser feita da melhor forma.

Nesse ponto falta a educação para o autoconhecimento, algo que no Brasil ainda não se pratica. Mesmo que ele em si não seja a solução, aquilo que se alcança através do conhecimento é muito importante na construção de um propósito de vida.

“É claro que ninguém gosta de tudo, mas faz parte essa descoberta pessoal para que você seja mais produtivo, mais engajado e mais versátil porque ninguém consegue fazer nada obrigado uma vida inteira. É muito sofrido’, lamenta Carlos.

Sobre o isolamento social

Carlos batizou o isolamento social de ‘acelerador de futuro’. Para ele, esse período está acelerando uma série de mudanças na sociedade que até poderiam estar em curso em empresas tecnológicas, mas que agora estão sendo prioridade de quase todos os segmentos.

“Na Avante Brasil que é uma empresa de educação a distância e, portanto, ligada à tecnologia a gente tem sofrido bem menos do que muitos setores. Manter todo mundo trabalhando com qualidade sendo que cada um está num local diferente é um desafio para gente mas com certeza é um desafio muito maior para outras empresas”, aponta Carlos.

Essa dinâmica de trabalho home office nos traz a reflexão de que o contato pessoal nem sempre significa qualidade de conexões, ou seja, a qualidade das conexões humanas que estabelecemos não está ligada diretamente ao contato presencial. Muitas vezes temos conexões profundas com alguém do outro lado do mundo e nos sentimos sós ou incompreendidos estando cercado de pessoas. Em termos de produtividade a presença física das pessoas se revelou não ser condição para que uma empresa bem gerenciada funcione.

Quem mais sofreu e sofre

Sobre os setores mais impactados pela pandemia e a paralização certamente estão aqueles que demandam de deslocamento humano como o turismo por exemplo. O setor foi paralisado quase que completo como relatamos em outra entrevista desta série. Toda a demanda reprimida dos prestadores de serviços ligados ao turismo de lazer, de negócios, de estudos, que é gigantesca parou sem previsão de voltar. A experiência turística está diretamente ligada ao presencial e isso não deverá mudar tão cedo. Uma coisa é você estar na praia, com os pés na areia, sentindo a temperatura e a densidade da água, os raios do Sol refletindo nos olhos. Outra coisa é você ler a respeito.

Outros setores por sua vez, alavancaram suas assinaturas e vendas como a educação a distância e também os serviços de entretenimento. A Netflix apenas nos três primeiros meses do ano conseguiu algo em torno de 16 milhões de novos assinantes.

“No setor de educação a distância a gente tem muitos contratos governamentais e alguns deles por uma questão de disponibilidade orçamentária dos órgãos estavam avaliando se caberia a renovação. Agora, com esse cenário, não tem risco deles não renovarem porque vai ser a única agenda positiva do órgão nesse período para continuar produzindo”, exemplifica Carlos.

Quem ganhou projeção

O setor de saúde também está imensamente demandado e agora a sua importância, que nunca foi subjugada ganhou mais destaque. Para Carlos os verdadeiros heróis dessa história serão esses trabalhadores que deixam seus familiares em casa e se arriscam para salvar os familiares das outras pessoas.

O setor de alimentação também está bem aquecido pelo fato de estarmos mais em casa, produzindo as refeições e as complementações: “Estamos todos  virando umas bolinhas ficando casa, comendo por distração e voltando a ter a experiência de comer em família. O consumo de alimentos aumentou no mundo inteiro”, lembra Carlos e acrescenta que o setor de entregas também foi alavancado. Os chamado delivery.

Ainda sobre os profissionais que não pararam, temos que lembrar dos produtores rurais que estão produzindo alimento na escala de sempre, com grande fartura e aqueles que recolhem nossos resíduos depois que os descartamos. Pessoas que são essenciais, sempre foram e que agora também são heróis sociais porque continuam na ativa.

A saúde mental é coisa séria

Uma chuva de lives está acontecendo, algumas com produção de um grande evento como a do DJ Alok e outras à base de pijamas como foi a da cantora Ivete Sangalo. O que isso pode contribuir para a questão emocional das pessoas é imensurável. Estar com um artista que você admira, dividindo até mesmo alguma intimidade garante o sorriso, a descontração e ajuda muito as pessoas a passarem por esse período de forma mais leve, mas descontraída.

Assim também as plataformas de filmes e conteúdos online se tornaram essenciais e até mesmo uma tentação para quem continua suas atividades profissionais em casa, com prazos e metas para alcançar.

A desburocratização

Tem um ditado que diz que no Brasil tudo que não é permitido é proibido. Nos Estados Unidos por exemplo, tudo que não é proibido é permitido e isso pode não parecer, mas faz muita diferença”, conclui Carlos sobre a agilidade que muitos procedimentos tem ganhado com essa experiência de isolamento social. Assinaturas digitais e entregas de documentos via e-mail estão mostrando que muitos processos estavam de fato obsoletos e agora terão versão digital e agilidade.

“O que não pode é uma empresa precisar reconhecer firma de documentos que são emitidos pelo próprio governo, o ente que tem fé pública. Para participar de uma licitação nós tínhamos que autenticar cerca de 1000 páginas no cartório até outro dia. Sem dúvida esse é um dos grandes entraves para o desenvolvimento da economia do Brasil, o excesso de burocracia”, exemplifica.

Como o profissional deve se preparar para o que virá

Primeiramente o cidadão e profissional deverá estar atento para as informações de qualidade.

“Eu sempre digo que a vida é feita de momentos positivos e negativos, mas eu sempre tento entender o que eu posso aprender com cada um deles”, alerta Carlos.

Outra coisa é “horizontalizar a educação” como denomina Carlos. Aquele modelo voltado para a academia, onde a pessoa faz a graduação, depois segue para a especialização, mestrado e doutorado é muito assertivo para quem quer ser um pesquisador ou professor universitário. Mas, pensando na sociedade como um todo essa parcela é de uma minoria de pessoas.

Claro que a pesquisa científica e as próprias questões acadêmicas são essenciais para o desenvolvimento e autonomia de um país, mas com certeza a empregabilidade, a renda e a demanda dos cidadãos é mais volumosa e imediata do que a academia é capaz de absorver.

Nas indústrias de grande porte o trabalhador é contratado para fazer uma única coisa e elas geralmente tem condições de pagar um especialista por isso.

Já as micro e pequenas empresas, maioria de empregadoras no país, precisam de profissionais que sejam versáteis, que saibam resolver a maioria das demandas do negócio, que sejam engajados, comprometidos e proativos.

Nem todos tem vocação, tempo e recursos para o primeiro cenário. Assim, os cursos rápidos que formam o profissional nas pequenas habilidades possibilitam o trabalhador a começar rapidamente no mercado de trabalho, com uma ou várias habilidades de extrema utilidade para a maioria das empresas. Isso vale também para quem já está no mercado de trabalho, mas quer se manter competitivo e atualizado. Os chamados cursos livres são excelentes para isso. Até mesmo os profissionais de nível superior tem investido nesses cursos como um diferencial na carreira.

Exemplos que falam

Em 2004 Carlos, que é pernambucano, chegou à Brasília em busca de trabalho já que havia feito seu estágio em turismo na cidade. Com o currículo debaixo do braço, orgulhoso pela conclusão da graduação como turismólogo buscou uma vaga no Ministério e para sua surpresa todos ali, ou a maioria tinham não só a graduação como ele, mas às vezes até o mestrado e doutorado. Foi então que soube de uma vaga para quem soubesse fazer mapas no Corel Draw. Passou o final de semana todo aprendendo a fazer os tais mapas e infográficos e na semana seguinte passou pela entrevista e foi contratado.

No melhor exemplo de caso Carlos diz que não basta ser um bom padeiro, tem que saber vender o pão.

Você pode começar com uma profissão principal que esteja alinhada com sua vocação e agregar os cursos livres para se tornar mais competitivo. Esse é o papel da educação continuada.

Para quem estuda contabilidade, por exemplo, é possível pensar em cursos livres de atendimento ao público, planejamento estratégico, gestão de recursos e objeção de conflitos. Esse é um exemplo de como pensar uma trilha do conhecimento.

Com esse abismo entre a vida acadêmica e o mercado de trabalho muitos profissionais que são ultra especializados ficam desempregados porque as pequenas e médias empresas não precisam deles, mas de pessoas com habilidades mais práticas e versáteis.

Um milhão de bolsas Trilhas do Sucesso

 O Trilhas do Sucesso é uma inciativa da Avante Brasil e divide os cursos online em área de habilidades técnicas e habilidades emocionais.

Atualmente o portal está disponibilizando um milhão de bolsas para 35 cursos livres em 6 diferentes áreas do conhecimento. Nenhum deles exige nível superior como pré requisito.

A escolha do curso vai depender muito de onde a pessoa pretende trabalhar.

Como diz o ditado, o dinheiro não some, ele muda de mãos. Portanto, uma dica para quem está pensando em escolher um curso é investir nas áreas mais aquecidas no momento. Ou você pode buscar os conhecimentos que estão mais alinhados com você, com o seu propósito de vida para que estudar seja mais prazeroso. Descubra o que você gosta.

“Estar feliz com o trabalho que desempenha não significa não ter obstáculos, mas você supera com mais facilidade quando se está conectado com seu propósito. Você veja que eu estou trabalhando e eu estou adorando trabalhar. É isso que eu desejo para todo mundo aqui”, conclui Carlos.